Eu também sou ignorante?

Colunista: Roberto Recinella  |  Publicado em: 02/02/2012 |  Leituras: 317

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A ignorância pode ser uma falta de conhecimento, sabedoria e instrução sobre determinado tema, ou mesmo crença em falsidades, já inteligência é definida como a capacidade de resolver problemas, compreender idéias, interpretar informações transformando as em conhecimento e, também, a capacidade de criar. Constitui um componente biopsicológico que difere o ser humano de outras espécies animais. Mas seria injusto recusar aos animais uma espécie de inteligência e acreditar que eles apenas seguem maquinalmente o impulso cego do instinto.

O mundo sobre os mistérios da inteligência é muito intrigante e desafiador. Desde a antigüidade, muitos filósofos gregos já se questionavam e produziam textos sobre o tema, deixando para as gerações seguintes um legado de perguntas referentes à sua natureza. Sócrates, em 400 a.C., procurou saber quem era a pessoa mais sábia do mundo e, para tanto, testou o conhecimento das pessoas para responder a essa pergunta. Desde então, o desafio de testar indivíduos e determinar sua classificação continuou...

Só no final do século XIX os pesquisadores aprofundaram seus estudos de forma mais sistemática, embasando-se na psicologia, educação, sociologia, medicina etc.

Nestes 100 anos, muitas pesquisas apresentaram explicações sobre o funcionamento do pensamento na mente humana em termos neurológicos e psicológicos. Os estudos aprofundaram-se em diversas direções e propuseram explicações que consideram a inteligência desde um dom divino até um complexo sistema de reações bioquímicas, com os milhões de neurônios do cérebro.

Alguns abordaram a capacidade de adaptação de comportamentos e as heranças biológicas e sociais, baseando-se na teoria da evolução; outros se concentraram na compreensão da linguagem na construção de símbolos e significados. Hoje, profissionais de várias áreas do conhecimento estão debruçados sobre o assunto, usando pesquisas neurológicas e equipamentos avançados. No entanto, mesmo com muitos estudos teóricos e testes de laboratório, as dúvidas persistem.

"Quem conhece a sua ignorância revela a mais profunda sapiência. Quem ignora a sua ignorância vive na mais profunda ilusão". Disse Lao Tsé.

Quando nos consideramos ignorantes, abrimos a porta para o conhecimento. Ser ignorante é uma virtude, pois não fomos informados de alguma coisa e aceitamos o fato como novo. Já aqueles que não se abrem para o conhecimento, ou recusam aprender aquilo que pode ser aprendido, chamamos de estúpidos. Ser ignorante é bom somente quando a gente se considera a si próprio.

Para muitos é difícil lidar com a dúvida permanente, por isso se mantêm ignorantes.

No livro "O Poder da Ignorância", os autores (Vaguen, Chris Gibbs [_e_] T.J. Dawe) afirmam, logo em sua capa: "Seja mais feliz, seguro, confiante e amado. Esqueça suas limitações. Aumente a sua ignorância e promova o bem-estar geral".

Acho até que há certas pessoas que acham que a ignorância é uma vantagem. Quanto mais sabemos mais dúvidas temos percebendo assim que há ainda muita coisa que não sabemos. Isso pode criar uma sensação de insegurança. Há certas pessoas que não lidam muito bem com ela.

As religiões são bem sucedidas porque não transmitem insegurança, transmitem a noção de que se a pessoa fizer as coisas como diz que devem ser feitas, ganha o Reino dos Céus. Simples assim.

O fato é que a maioria das pessoas se sente tão perdida e vulnerável num mundo cada vez mais incerto, e por isso mais amedrontador, que a ignorância e a alienação voluntária tornou-se um refúgio seguro. Não saber é melhor para se viver, pois na medida em que aumenta o conhecimento, aumenta também o sofrimento, já que somos forçados à reflexão.

O maior mal que assola a Humanidade é a dificuldade de pensar. Cada vez mais as pessoas estão com preguiça de pensar. Pois pensar dá trabalho.

A crença básica da preguiça é "não preciso aprender nada, nem quero, já tenho todas as respostas!", levando a um movimento limitador das idéias e ações no cotidiano e traduzido pelo "deixa para depois". A origem da palavra vem do hebraico: atsêl - se recusa a agir, fazer, produzir, lentidão ou indolência já no latim é priguitia, aversão ao trabalho, morosidade, lentidão, moleza, ou seja, a preguiça em qualquer língua é a mãe de todos os pecados. É ela que nos aprisiona no marasmo que inexoravelmente submete qualquer um a incompetência

Os espaços acadêmicos têm sido um dos grandes inibidores do pensar. Os alunos estão lá como meros espectadores e não como indivíduos em transformação. O que importa é somente o passado; o que foi pensado, o que foi descoberto, o que foi dito. O amanhã não interessa, portanto não precisa ser discutido, pensado, inventado. Assim alimentamos toda uma geração de pessoas com preguiça de pensar.

Pode-se afirmar que a ignorância é a causa de todos os males modernos. Não as drogas, a violência, mas a pura e cristalina ignorância é que permite ao indivíduo escolher um caminho ruim, geralmente em detrimento ao caminho bom.

A ignorância não existe sozinha ela deve ser incorporada e racionalizada, logo é uma escolha. Você escolhe ser ignorante. No filme Matrix, há uma cena onde o Morpheus oferece a Neo a opção de saber a verdade para isso bastava escolher entre ingerir a pílula azul ou vermelha. A escolha da pílula vermelha o remete a simbologia do mito da Caverna narrado por Platão no livro VII de "A Republica", onde o escravo que se liberta da escuridão da caverna, podendo ver a luz e o mundo fora dela, conseguindo ver alem das sombras daquela parede no escuro. Uma alusão à metáfora da nossa vida, uma ilusão, um pálido reflexo da Realidade. Enfim se libertando da ignorância.

Uma recente pesquisa de opinião com estudantes em todo o Brasil registrou um comportamento muito interessante. Percebeu-se que alunos que têm o hábito de estudar são sistematicamente hostilizados pelos colegas. Em outras palavras, aqueles que gostam de ler, que prestam atenção nas aulas e dedicam-se ao curso são discriminados e ridicularizados pela maioria. Além de enfrentar os livros, esses alunos têm que combater toda uma cultura do atraso para firmar posição perante a turma.

Os ignorantes por opção, não compreendem que o estudo e a leitura são atividades prazerosas. Pessoas inteligentes não sofrem ao estudar, pois o exercício do pensamento é uma atividade agradável. Um desafio pessoal.

Segundo Immanuel Kant, filósofo alemão, em geral considerado o pensador mais influente dos tempos modernos o esclarecimento é um processo de emancipação intelectual, de superação da ignorância e da preguiça de pensar por conta própria.

O questionamento sempre foi mal visto na historia da humanidade, veja os exemplos de Sócrates, Galileu Galilei, Leonardo da Vinci, Charles Darwin dentre milhares de outros nomes, mas atualmente com a cultura de massa disseminada as pessoas estão sendo colocadas ás margens da sociedade com mais facilidade, basta pensar diferente, fugir do estereótipo vigente ou contestar processos. Seja nas instituições de ensino onde passam a ser rotulados como chatos e encrenqueiros até no ambiente corporativo onde são taxados de sabotadores ou do contra.

Tente pensar diferente em sua empresa, escola, grupo de amigos, igreja ou família e avalie como você é tratado. A mensagem subliminar é clara, ou você se enquadra ou é excluído.

Para Kant, é preciso esforço para pensar por conta própria, ou seja, ser livre, pois o esclarecimento é o processo de independência intelectual, é a ousadia de romper as barreiras da ignorância e pensar por si mesmo.

Hoje vivemos na era da desinformação pensante onde podemos perceber um retrocesso do ato de pensar, a sociedade não oferece estímulos para pensar. Os meios de comunicação se tornaram "desapendizantes", enchendo a mente das pessoas com informações inúteis e alienantes, vide o exemplo de qualquer versão de programas de fofocas, auditório ou até mesmo as novelas, a programação diária injeta em nossos lares preocupações desnecessárias, impossibilitando assim o senso crítico e o pensar próprio.

Valorizamos o pensamento coletivo em detrimento ao individual. Pensamento coletivo é pensamento "condicionado" em virtude de toda espécie de propaganda, de educação, de literatura, de políticas assistencialistas a que somos submetidos. Criando um pensar coletivo tradicional, quer seja uma tradição nova quer velha; fazendo ajustes no pensar segundo uma norma coletiva, esperando que desse modo não haja questionamentos da realidade.

Como disse Henry David Thoreau "Toda geração ri da moda antiga, mas segue religiosamente a nova".

Sócrates, talvez o maior dos filósofos gregos, já havia alertado para o fato de que a verdadeira cultura nasce da autoconsciência, da capacidade de se questionar sobre o valor da cultura acumulada e de investigar as causas, as razões e os objetivos do conhecimento. Essa é a lição suprema, essa é a lição que deve orientar a vida de uma pessoa.

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Publicado em:
02/02/2012 - 11:28
Augusto Ferreira
Roberto, parabéns pela pesquisa e artigo. Gostaria apenas de observar sua colocação quanto às Unidades Acadêmicas, faço parte da UFPA, e posso dizer-lhe com toda tranquilidade e alegria que há uma mudança em relação ao processo de transmissão do saber em nossos Campi. A pesquisa, a descoberta e o processo de gerar conhecimento são realidades presentes na vida de nossos graduandos.
No mais, obrigado pela leitura clara e agradável.
Abraços,
Augusto Ferreira
Publicado em:
03/02/2012 - 11:40
Nilton Maia
Excelente artigo. Há muito tempo não lia algo tão estimulante a respeito da capacidade inerente à nossa espécie, que é a de pensar, cada vez mais colocada de lado, em detrimento das \"soluções prontas\" dos dias de hoje. Parabéns ao autor do texto!