Mea culpa, preconceito e a multidão 2.0
Colunista:
Luiz Affonso Romano | Publicado em:
29/04/2011 | Leituras:
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As recorrentes manifestações de preconceito das grandes torcidas aqui e acolá nos surpreendem negativamente. Nos primeiros casos registrados de preconceito da multidão 2.0 – que chamaremos de ‘sentimento discriminatório transformado’ – tais manifestações eram vistas em campos de futebol na Europa, cujos gramados testemunhavam o uso da agressão moral como um último recurso contra o talento. Contra os dribles desconcertantes, bananas e outras evidências para colocar cada um no seu devido lugar. Prática que parecia encerrada a certas correntes de opinião distantes, agora se espraia para o futebol e outros esportes dentro do Brasil.
Chegou a vez do vôlei com o episódio da homofobia na partida Cruzeiro x Vôlei Futuro. Fazemos um mea culpa e admitimos: organizadores do código de ética da Confederação Brasileira de Voleibol, em 2001, deixamos de contemplar esta possibilidade, agora renascida na 1ª partida da semifinal, em Minas Gerais. Deixamos de fora a homofobia, não porque fosse menos importante há dez anos, mas porque havia um movimento de aceitação à diversidade, ao exercício de novos comportamentos e a premissa de que o vôlei atraía um público menos propenso a atos de discriminação.
Esse pressuposto era amparado pelo público que frequentava os estádios. Os que assumiam ser homofóbicos davam asas à agressividade em espaços restritos e fechados. Não tinham coragem de fazê-lo aberta e publicamente. Como também escondidos estavam os intolerantes religiosos...
Os importantes e urgentes temas eram as possibilidades de corrupção, negociação de passes, jogo desleal, uso de estimulantes químicos, racismo, violência, má imagem pública de atleta, árbitros, dirigentes e instituições ligadas a outros esportes no país e no exterior. Inclusive, tínhamos uma visão de que a forma de se conceituar ‘multidão’ era algo ultrapassado. Fazia mais sentido falar de ‘público’. Um refinamento da visão de que a massa é irracional e perigosa quando seus integrantes estão anônimos, passando para o pólo positivo da reunião em grande escala de diferentes indivíduos capazes de compartilhar o espaço público (no caso, os estádios) imbuídos dos valores do convívio e da tolerância.
Uma saída possível para explicar a reação homofóbica da multidão seria o desejo da arquibancada em tentar desequilibrar o atleta adversário. Um recurso desleal, que não combina com o espírito esportivo. Naquela época, o código de ética se prestava a revelar de forma explícita e formal aquilo que se via nas arquibancadas, em dias de jogos de vôlei, de forma implícita e informal: alegria, amor ao esporte, espírito de competição, alternativa profissional, impacto do esporte nas comunidades, igualdade, lealdade, responsabilidade e transparência.
Parece, no entanto, que precisamos atualizar não somente o código de ética da CBV- tal e qual outros códigos que já foram adaptados às novas opções, novos valores e novos tempos-, mas também nossas crenças sobre a multidão, que reaparece na sua versão 2.0 com valores transformados de tolerância e competição. E agora com poder de voz ainda maior com a emergência da comunicação todos- todos. Profs e consultores Luiz Affonso Romano, José Maria Noronha e Anderson Ortiz(equipe que elaborou o Código de Ética da CBV, em 2001).
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