Bizu na Rádio-Peão!
Colunista:
Mauricio de Oliveira | Publicado em:
24/01/2012 | Leituras:
1.191
De acordo com o item 5.5.1 da ISO 9001:2008 (Comunicação Interna), a Alta Direção deve assegurar que sejam estabelecidos na organização os processos de comunicação apropriados e que seja realizada comunicação relativa à eficácia do sistema de gestão da qualidade. Este ponto alerta que onde ninguém sabe quem manda é fácil estabelecer-se o caos. Para ilustrar esse sub-requisito, uma antiga historinha encaixa-se muito bem: Aquela das quatro pessoas, todo mundo, alguém, qualquer um e ninguém, conhecida de todos. Bem, um simples organograma dizendo quem é quem e por quais áreas é responsável resolve a questão. É aconselhável que seja divulgado por toda a organização e que seja tomado um cuidado especial: torna-lo um documento controlado e cuidar de mantê-lo atualizado, caso a estrutura mude. Que mudanças podem ocorrer? Pessoas, responsabilidades, Novas Áreas…
Mas comunicação, tanto interna quanto externa, deve ser considerada importantíssima em qualquer área; todas informações devem ser públicas para que todos os funcionários tomem conhecimento oficialmente. Seja o lançamento de um novo produto, a promoção de fulano, a possibilidade de cortes de pessoal (a famosa Barca), tudo tem de ser transparente. A Gestão da Qualidade, para ser bem conduzida, depende extremamente dessa ferramenta essencial nas relações humanas. A ISO enfatiza em seu texto a comunicação relativa à eficácia do SGQ, mas propositadamente não exemplifica os meios utilizados, deixando a critério das organizações essa definição. Esta definição se guia por uma questão cultural: existem empresas onde a comunicação é extremamente formal, efetivada através de reuniões, atas, relatórios… Outras utilizam-se de cartazes bem humorados, jornais internos, sistemas audiovisuais… E tudo isso é comunicação!
Quando essa comunicação não acontece, as notícias correm através de bizu na rádio-peão; de uma maneira geral pode dizer-se que o bizu é uma espécie de “noticia de ultima hora”, factóide ou não, naquilo que esta tem de mobilizador e persuasivo, que atravessa uma organização através dos canais de comunicação informais. Contrapondo-se às vias oficiais da empresa, o bizu, ou boato, ou rádio-corredor, rádio-peão e etc, é a voz do grupo, o murmúrio expressivo de todo o corpo social da organização, o qual possui uma força e importância extremas para o quotidiano.
Gerir uma empresa é, assim, gerir também o murmúrio do seu grupo. De uma maneira sucinta, pode dizer-se que o aparecimento do bizu na empresa tem a ver com a sua cultura organizacional, sobretudo no que diz respeito a concepção de “empregado”. Assim, existem, basicamente, dois tipos de culturas organizacionais: uma, em que o empregado é visto como um “cidadão organizacional”, ou seja, como um colaborador adulto e com exigências, e outra, em que ele é visto como um “súdito organizacional”, ou seja, como um servidor infantilizado e com deveres. Estes dois tipos de culturas formam entre si um continuo temporal. Tal como em termos políticos, os indivíduos foram passando de súditos a cidadãos de um país, num movimento de alargamento da base de participação e responsabilização nos negócios públicos, também dentro das organizações de trabalho contemporâneas se assiste hoje a um fenômeno semelhante: a passagem do empregado-súdito de uma organização a colaborador-cidadão dessa organização. Adicionalmente, o indivíduo que entra hoje diariamente nas organizações de trabalho é um cidadão cada vez mais informado, profissionalmente cada vez mais qualificado, responsável por tarefas complexas e portador de comportamentos sociais perfeitamente adequados.
Ele exige agora, e para além do salário apropriado, todo um conjunto de recompensas, desde recintos desportivos dentro da própria organização, e passando pela gestão individual
do tempo de trabalho, pela participação nas decisões e pela formação profissional. São novos tempos. Ora, face a este contínuo súdito–cidadão, é possível classificar a cultura organizacional de cada empresa, localizando-a mais perto ou mais longe da cidadania organizacional em função de critérios estabelecidos. O nível de bizus e notícias na rádio-peão numa empresa é um dos critérios identificadores do tipo de cultura
organizacional instituído: quanto maior for o nível de bizus, mais a empresa estará perto da cultura organizacional do súdito. Assim, quando uma empresa possui uma estrutura autoritária, autocrática e
totalitária, o segredo informativo é lei. Quer isto dizer que numa empresa em que o empregado é visto não como colaborador adulto com exigências mas sim como um servidor infantilizado e com deveres, a informação necessária à vida da empresa encontra-se apenas no topo da pirâmide e não é distribuída
formalmente à base. Então, essa base, e porque precisa dessa informação para subsistir como grupo social, vai procurá-la junto de meia dúzia de pessoas que, por uma razão ou por outra, se encontram próximo do “segredo dos Deuses”. Quase sempre, ou normalmente, são o motorista do diretor, o contínuo da alta administração, alguns porteiros muito antigos na casa e etc... que , ouvindo algumas migalhas informativas, as distribuem, devidamente enfeitadas, pelo resto da organização. A opinião pública interna da empresa forma-se, assim, à base desse rumor, desse bizu, ou seja, dessa informação não oficial, do “diz-se que”, do “consta que”, do “disseram-me que”, a qual pode ter ou não a ver com a realidade objetiva.
A gestão autoritária esvaziou o papel dos indivíduos como fonte e receptor informativo, circunscrevendo a estrutura comunicativa ao topo da pirâmide. Contudo, na grande maioria das organizações democráticas contemporâneas, o empregado já é considerado como um cidadão, mas as estruturas que o acolhem ainda só o vêem como tendo direito a receber informação. Não estão montados os mecanismos que complementariam o ciclo comunicativo, ou seja, o cidadão fala mas ainda não é ouvido. Pelo menos esse é o bizu que está correndo na rádio-peão...
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Li seus artigos e enxergo em voce um grande potencial de disseminar conhecimento.
Porem, visualizo que voce externa um certo rancor ou uma decepção pessoal frente ao mundo. Ai como professor me preocupa esta forma de escrever, questionando o seu tema de artigo, como se estivesse escrevendo um artigo policial ou comentando sobre um crime.
Entendo que ensinar e mostrar conhecimento é nosso dever, mas nossa visão pessoal do mundo tem que ser pessoal, quando voce as exterioriza, ativa outras pessoas que acabam por se encorajar e ai voce passa a ter seguidores. Se este for seu objetivo, va em frente, mas se não, de uma refletida e me corrija por favor.