As duas faces do tempo
Colunista:
Wellington Moreira | Publicado em:
17/11/2011 | Leituras:
563
Creio que a frase mais repetida em nosso país durante todos os dias seja “Eu não tenho tempo!”. Parte das pessoas a expressa de forma resignada lamentando tal infortúnio enquanto que a outra parcela tem procurado encontrar formas para administrar melhor as horas de seu dia, o que nem sempre tem sido suficiente para cumprir agendas cada vez mais repletas de compromissos.
Na Antiguidade os gregos também já se preocupavam com o fator tempo e, segundo eles, este era orientado pelos deuses mitológicos Cronos e Kairós. Figuras díspares e que proporcionam uma importante reflexão sobre este assunto, mesmo após muitos séculos.
Segundo o poeta grego Hesíodo, que viveu no século VIII a.C., para governar o mundo Cronos castrou o seu próprio pai e matou cinco dos seis filhos logo ao nascerem (somente Zeus sobreviveu, salvo pela mãe) por causa do medo que possuía em ser destronado. Portanto, trata do deus que quer conservar a ordem vigente pelo medo de ser privado de seu poder e também do tempo matemático-técnico e mensurável, que corre uniformemente dia após dia e pode ser bem representado pelo uso do relógio e da agenda de compromissos, que servem como instrumento de medição e controle temporal.
Cronos traduz a necessidade atual do homem em mensurar os processos de trabalho, planejar suas atividades nos mínimos detalhes e calcular todas as possibilidades para cumprir seus propósitos. O problema é que, pressionadas por planejamentos e agendas muitas vezes inexequíveis, cada vez mais pessoas têm se tornado escravas das inúmeras metas que estabeleceram para si ou suas organizações.
É claro que o homem necessita orientar produtivamente seu tempo, afinal de contas o planejamento e a organização são imprescindíveis para qualquer tipo de desenvolvimento humano ou social. A disfunção reside no fato de orientar tudo por meio do fator Cronos, o que tem sido comum para muita gente e provocado desgastes desnecessários.
Por seu turno, Kairós, filho de Zeus e, portanto, neto de Cronos, foi um semideus que jamais teve por objetivo dominar o mundo e, consequentemente, não se preocupou em ocupar o lugar de seu pai. Geralmente, retratado como adolescente, espelha o vigor e a ousadia do jovem que decide e age, por vezes intempestivamente.
A percepção do tempo sob a dimensão Kairós revela possibilidades que só podem – e devem – ser aproveitadas no momento presente (carpe diem, para os romanos) como ocorre quando você aprecia uma sobremesa deliciosa, avista uma belíssima paisagem ao entardecer, sente o cheirinho que exala de uma árvore após rápida chuva ou celebra uma conquista pessoal. Desta forma, o Kairós trata do viver qualitativo do tempo que possibilita a visualização de oportunidades, diferentemente do Cronos que exalta o aspecto quantitativo presente nele.
Segundo o monge beneditino alemão Anselm Grün, “ambos os deuses, Cronos e Kairós, no relacionamento correto, pertencem a uma vida plena”, pois sem regulamentações temporais não existiria nenhuma cultura, mas estas precisam conviver numa sadia relação de tensão com a vida no instante que experimenta, usufrui e reconhece ocasiões únicas.
A grande dificuldade do homem moderno não é administrar o seu tempo, mas sim as prioridades que estabelece para si. Quanto menor o número de coisas que você quer alcançar mais fácil também é equilibrar as duas dimensões, ao passo que deixar-se seduzir por inúmeras e atraentes prioridades simultâneas abre as portas para que o fator Cronos tome conta da sua vida.
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